Dissertações espíritas
Revista Espírita, setembro de 1861
Um Espírito israelita aos seus
correligionários.
II
Meus amigos,
Não fiqueis surpresos lendo esta comunicação. Ela vem de mim, Edouard Pereyre, vosso parente, vosso amigo, vosso compatriota. Fui bem eu quem a ditou a meu sobrinho Rodolphe, de quem tenho a mão para fazê-la escrever conforme a minha letra. Tomo esta pena para melhor vos convencer, porque é uma fadiga para o médium e para mim, o médium devendo seguir um movimento contrário àquele que lhe é habitual.
Sim, meus amigos, o Espiritismo é uma nova revelação, e compreendeis a importância desta palavra em toda a sua acepção. É uma revelação, uma vez que vos revela uma nova força da Natureza que não suspeitáveis, e no entanto ela é tão antiga quanto o mundo; era conhecida por homens de elite de nossa nossa história religiosa, à época de Moisés, e foi por ela que recebestes os primeiros ensinamentos sobre os deveres do homem para com o seu criador,
mas não deu senão o que era então compatível com os homens daquela época.
Hoje, que o progresso está feito; que a luz se derrama sobre as massas, que a estupidez e a ignorância das primeiras idades começam dar lugar à razão e ao senso moral; hoje, que a idéia de Deus é compreendida por todos, ou todos ao menos da imensa maioria, se faz uma nova revelação, e ela se produziu simultaneamente entre todos os povos instruídos, se modificando, todavia, segundo o grau de seu adiantamento, e esta revelação vos disse que o homem não morre, que a alma sobrevive ao corpo, e que ela habita o espaço entre vós e ao vosso lado.
Sim, meus amigos; consolai-vos quando perderdes um ser que vos é caro, porque não perdeis senão o seu corpo material; mas o seu Espírito vive em vosso meio para vos guiar, vos instruir e vos inspirar. Secai as vossas lágrimas, sobretudo se ele foi bom, caridoso e sem orgulho, porque então está feliz nesse mundo novo onde todas as religiões se confundem numa única e mesma adoração, banindo todos os ódios e todos os ciúmes de seitas. Também somos felizes quando podemos inspirar esses mesmos sentimentos aos homens que estamos encarregados de instruir, e a nossa maior felicidade é de vos ver reentrar num bom caminho, porque então abris a porta pela qual deveis vir juntar-se a nós. Perguntai ao médium quais são os sublimes ensinamentos que recebe de seu avô Mardochée; se segue a rota que lhe está traçada, e se prepara um futuro de felicidade; mas também, se faltasse aos seus deveres depois de um tal ensinamento, disso sofreria toda a responsabilidade, e seria para ele recomeçar, até que tenha convenientemente cumprido a sua tarefa.
Sim, meus amigos, já vivemos corporalmente, e viveremos ainda; a felicidade de que gozamos não é senão relativa; há estados bem superiores àquele em que estamos, e aos quais não se chega senão por encarnações sucessivas e progressivas em outros mundos; porque não creiais que, de todos os globos do Universo, a Terra seja o único habitado. Pobre orgulho do homem que crê que Deus não criou todos os astros senão para alegrar a sua visão! Sabei, pois, que todos os mundos são habitados, e, entre esses mundos, se soubésseis o lugar que a Terra ocupa, não teríeis razão para disso se glorificar! Se não fora cumprir a
missão que nos foi dada para vos inspirar, e de vos instruir, quanto gostaríamos mais de ir visitar esses mundos e nos instruir a nós mesmos! Mas o nosso dever e as afeições nos ligam ainda à Terra; mais tarde, quando cedermos o lugar aos últimos que chegam, iremos tomar outras existências em mundos melhores, purificando-nos assim por graus até que cheguemos a Deus, nosso Criador.
Eis o Espiritismo; eis o que ele ensina e isto é a verdade que hoje podeis compreender e que deve vos ajudar a vos regenerar.
Compreendei bem que todos os homens são irmãos, sejam eles negros ou brancos, ricos ou pobres, muçulmanos, judeus ou cristãos. Como devem, para progredir, renascer várias vezes, segundo a revelação que disso fez o Cristo, Deus permite que aqueles que os laços do sangue ou da amizade uniram, em existências anteriores, se reencontrem de novo sobre a Terra, sem se reconhecerem, mas em posições relativas às expiações que têm para suportar
pelas suas faltas passadas; de sorte que aquele que é vosso servidor pode ter sido vosso senhor, em uma outra existência; o infeliz a quem recusastes assistência, talvez seja um de vossos antepassados do qual teríeis vaidade, ou um amigo que vos foi caro. Compreendei agora a importância deste mandamento do decálogo: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo." Eis, meus amigos, a revelação que deve vos levar à fraternidade universal, quando for compreendida por todos. Eis porque não deveis permanecer imutáveis em vosso
princípios, mas seguir a marcha do progresso, traçada por Deus, sem jamais vos deter; eis porque vos exortei a tomar nas mãos a bandeira do Espiritismo. Sim, sede Espíritas, porque é a lei de Deus, e lembrai-vos de que neste caminho está a felicidade, porque é o que conduz à perfeição. Eu vos sustentarei, eu e todos aqueles que conhecestes, que, como eu, agem no mesmo sentido.
Que, em cada família se estude o Espiritismo, que, em cada família se formem médiuns, a fim de multiplicar os intérpretes da vontade de Deus; não vos deixeis desencorajar pelos entraves das primeiras provas: freqüentemente, elas estão cercadas de dificuldades e não são sempre sem perigo, porque não há recompensa ali onde não há um pouco de dificuldade.
Todos podeis adquirir esta faculdade, mas antes de tentar obté-la, estudai a fim de vos premunir contra os obstáculos; purificai-vos de vossas manchas; corrigi vosso coração e vossos pensamentos, a fim de afastar de vós os maus Espíritos; orai sobretudo por aqueles que procuram vos obsidiar, porque é a prece que os converte e vos livra deles. Que a experiência de vossos antepassados vos aproveite e vos impeça de cair nas mesmas faltas!