sexta-feira, 24 de abril de 2015

O renascer e os pacificadores

“Pequeno erro de cálculo pode trair o equilíbrio de um edifício inteiro. Eis por que em se despojando alguém de algum patrimônio material, a benefício dos outros, não se esqueça também de desintegrar, em derredor dos próprios passos, os velhos envoltórios do rancor, do capricho doentio, do julgamento apressado ou da leviandade criminosa, dentro dos quais afivelamos pesada máscara ao rosto, de modo a parecer o que não somos.” (XAVIER, F. C. Pão Nosso. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 2005. Item nº 147.)

Não é tão simples como pensamos o julgamento dos nossos próprios atos, pois tendemos a nos considerar muito melhores do que o somos em relação às outras pessoas. Sabendo disso, Jesus recomenda: “Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós” (Mateus, 7:1-3). Ou seja, se tendemos a ser severos para com as atitudes alheias e generosos em relação aos nossos próprios atos, não é bem assim que nos vê o olhar alheio.
Trazemos conosco, de tempos imemoriais, não poucos defeitos morais, como os citados pelo Espírito Emmanuel, todos derivados unicamente do egoísmo, a origem de todas as nossas imperfeições morais. O egoísta, por se considerar superior ao seu próximo, reivindica para si todas as atenções. Se é atleta, ainda que não possua o mesmo preparo físico do seu concorrente, sente-se injustiçado, se não pela humanidade, por Deus ou pela natureza, quando é superado por aquele. Daí surgir a inveja em seu sentimento, por não suportar o sucesso do outro. Se participa de um grupo de pesquisa e seu colega se sobressai, em alguma nova contribuição científica, em virtude de melhor preparo intelectual, fruto de muito maior dedicação do que a sua, é levado pelo despeito e, já que não pode ocupar o lugar de destaque do outro, empenha todos os seus sentimentos mesquinhos para empanar o brilho que não pôde alcançar. É quando surge a nossa maledicência leviana e, mesmo, criminosa, como afirma Emmanuel.
Como não podemos ser ou ter o que desejamos o que o outro possui ou é, julgamos que, destruindo-o, conseguiremos tomar-lhe o lugar. E assim por diante, vamos dando vazão às nossas ambições de conquista de algo imerecido, ao longo de muitas vidas, sofrendo, consequentemente, pela lei de causa e efeito, ou de ação e reação, as correções de nosso Pai amoroso, cujas leis são todas voltadas para o nosso bem, ainda que se nos pareçam amargo remédio.
Criados simples e ignorantes, como nos informam os Espíritos superiores n’O Livro dos Espíritos, à medida que nos instruímos, percebemos a presença da Lei de Deus em nossa consciência, a clamar insistentemente: “Caim, o que fizeste do teu irmão?”. Durante algum tempo, fingimos não ouvir tal apelo; mas ele está lá, no âmago do nosso ser, implacável, insistente... Até o dia em que, não suportando mais esse apelo, retornamos à vida espiritual cheios de remorsos e vontade de reparar nossos erros, por constatarmos que, ali, ninguém engana ninguém, muito menos a si mesmo.
De início, sentimos queimar, dentro de nós mesmos, o fogo do remorso, da raiva e clamamos, em altos brados, por misericórdia, nas zonas umbralinas ou de trevas do plano espiritual. Entretanto, enquanto nosso arrependimento não for sincero e não fizermos o sincero propósito de retificar nossos caminhos equivocados, não seremos socorridos. Chega, por fim, após inauditos sofrimentos, o dia em que nossos apelos são percebidos como sinceros, pelos embaixadores divinos. Então pedimos a Deus, humildemente, uma nova chance. É quando Ele nos diz, pela voz dos arautos do Evangelho do Cristo, ser necessário:
Renascer
É necessário renascer do espírito,
Para de vez vencer a má tendência,
E nunca mais fazer da norma o grito,
E em seu lugar usar a paciência.
A calma é sempre bem maior que o atrito,
Quem cala evita a vã maledicência
Do infeliz coitado, pobre aflito,
Que não percebe o mal em sua essência.
Quem se acomoda então no velho drama
De reviver no mal teimosamente
Transforma em treva o crepitar da chama.
Quem não age no bem só sofre e clama
Até compreender, humildemente,
Que a paz é a virtude de quem ama.
Agora, sim, tudo começa a ficar claro para nós. Se, antes, desejáramos ser amados, e nesse desejo nos julgávamos merecedores dos créditos e títulos alheios, agora sabemos que a verdadeira felicidade está em amar e servir, incondicionalmente, o nosso próximo, para fazer jus ao título de pacificadores. E “bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus” (Mateus, 5:9).


            Jorge Leite de Oliveira

segunda-feira, 20 de abril de 2015

LEMBRANDO ALLAN KARDEC


Pelo Espírito Irmão X (Humberto de Campos). Psicografia de Francisco Cândido Xavier.
Livro: Doutrina Escola. Lição nº 05. Página 29.
Mensagem recebida em 22.09.1942. Lida aos 03.10.1942, durante a 3ª Concentração Espírita de São Paulo, no Ginásio do Pacaembu.

Depois de se dirigir aos numerosos missionários da Ciência e da Filosofia, destinados à renovação do pensamento do mundo no século XIX, o Mestre aproximou-se do abnegado João Huss e falou, generosamente:
- Não serás portador de invenções novas, não te deterás no problema de comodidade material à civilização, nem receberás a mordomia do dinheiro ou da autoridade temporal, mas deponho-te nas mãos a tarefa sublime de levantar corações e consciências.
A assembléia de orientadores das atividades terrestres estava comovida. E ao passo que o antigo campeão da verdade e do bem se sentia alarmado de santas comoções, Jesus continuava.
- Preparam-se os círculos da vida planetária a grandes transformações nos domínios do pensamento. Imenso número de trabalhadores no mundo, desprezando o sentido evolucionário da vida, crê na revolução e nos seus princípios destruidores, organizando-lhe movimentos homicidas. Em breve, não obstante nossa assistência desvelada, que neutralizará os desastres maiores, a miséria e o morticínio se levantarão no seio de coletividades invigilantes. A tirania campeará na Terra, em nome da liberdade, cabeças rolarão nas praças públicas em nome da paz, como se o direito e a independência fossem frutos da opressão e da morte. Alguns condutores do pensamento, desvairados de personalismo destruidor, convertem a época de transição do orbe em turbilhão revolucionário, envenenando o espírito dos povos. O sacerdócio organizado em bases econômicas não pode impedir catástrofe. A Filosofia e a Ciência intoxicaram as próprias fontes de ação e conhecimento!...
É indispensável estabelecer providências que amparem a fé, preservando os tesouros religiosos da criatura. Confio-te a sublime tarefa de reacender as lâmpadas da esperança no coração da humanidade.
O Evangelho do Amor permanece eclipsado no jogo de ambições desmedidas dos homens viciosos!...
Vai, meu amigo. Abrirás novos caminhos à sagrada aspiração das almas, descerrando a pesada cortina de sombras que vem absorvendo a mente humana. Na restauração da verdade, no entanto, não esperes os louros do mundo, nem a compreensão de teus contemporâneos.
Meus enviados não nascem na Terra para serem servidos, mas por atenderem às necessidades das criaturas. Não recebem palmas e homenagens, facilidades e vantagens terrestres, contudo, minha paz os fortalece e levanta-os, cada dia... Muitas vezes, não conhecem senão a dificuldade, o obstáculo, o infortúnio, e não encontram outro refúgio além do deserto. É preciso, porém, erigir o santuário da fé e caminhar sem repouso, apesar de perseguições, pedradas, cruzes e lágrimas!...
Ante a emoção dos trabalhadores do progresso cultural do orbe terrestre, o abnegado João Huss recebeu, a elevada missão que lhe era conferida, revelando a nobreza do servo fiel, entre júbilos de reconhecimento.
Daí a algum tempo, no albor do século XIX, nascia Allan Kardec em Lyon, por trazer a divina mensagem.
Espírito devotado, jamais olvidou o compromisso sublime. Não encontrou escolas de preparação espiritual, mas nunca menosprezou o manancial de recursos que trazia em si mesmo. E, como se quisera demonstrar que as fontes do profetismo devem manar de todas as regiões da vida para sustentáculo e iluminação do espírito eterno, embora no quadro dos grandes homens do pensamento, estimou desferir os primeiros vôos de sua missão divina na zona comum onde permanece a generalidade das criaturas.
Consoante a previsão do Cristo, a Revolução Francesa preparara com sangue o império das guerras napoleônicas.
Enquanto os operários da cultura moderna lançavam novas bases ao edifício do progresso mundial, o grande missionário, sem qualquer preocupação de recompensa ou exibicionismo, dá cumprimento à tarefa sublime.
E foi assim que o século XIX, que recebeu a navegação a vapor, a locomotiva, a eletrotipia, o telégrafo, o telefone, a fotografia, o cabo submarino, a anestesia, a turbina a vapor, o fonógrafo, a máquina de escrever, a luz elétrica, o sismógrafo, a linotipo, o radium, o cinematógrafo e o automóvel, tornou-se receptor da Divina Luz da Revivescência do Evangelho.
O discípulo dedicado rasgou os horizontes estreitos do ceticismo e o plano invisível encontrou novo canal a fim de projetar-se no mundo, atenuando-lhe as sombras densas e renovando as bases da fé.
Alguns dos companheiros de luta espiritual, embora em seguida às hostilidades do meio, recebiam aplausos do mundo e proteção de governos prestigiosos, mas emissário de Jesus, no deserto das grandes cidades, trabalhava em silêncio, suportando calúnias e zombarias, vencendo dificuldades e incompreensões.
Ao fim da laboriosa tarefa, o trabalhador fiel triunfara.
Em breve, a Doutrina Consoladora dos Espíritos iluminava corações e consciências, nos mais diversos pontos do globo.
É que Allan Kardec, se viera dos círculos mais elevados dos processos educativos do mundo, não esquecera a necessidade de sabedoria espiritual.
Discípulo eminente de professores consagrados, como Pestalozzi, não esqueceu a ascendência do Cristo.
Trabalhador no serviço da redenção, compreendeu que não viera à Terra por atender a caprichos individuais e sim aos poderes superiores da vida.
Sua exemplificação é um programa e um símbolo.
Conquistando a auréola dos missionários vitoriosos, não se incorporou à galeria dos grandes do mundo, por que apenas indicasse o caminho salvador à humanidade terrestre.
Allan Kardec não somente Pregou a Doutrina Consoladora; Viveu-a.
Não foi um Simples Codificador de Princípios, mas um Fiel Servidor de Jesus e dos Homens.

quarta-feira, 1 de abril de 2015